quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A Bíblia

Aqui fica a minha sugestão de contracapa para uma obra razoavelmente conhecida.
Nuno Valente

Aula 4: adequação, falsas questões, falácias e pausas significativas

Como é a aula 4, vamos tratar do ponto 4. Ma se fosse o ponto 7.2, teríamos aqui um vídeo bem engraçado e certeiro. 

Exercício para a próxima aula: escolha cinco capas que acha boas e cinco que acha más. 

Um editor é uma alcoviteira a matchmaker, uma casamenteira. Alguém cuja profissão é marcar encontros, prestar um date service. Há um texto que procura um leitor, e há um leitor certo para aquele texto. Um livro de poesia procura poucos 'leitores certos', um romance de aeroporto procura um milhão de leitores.

Agora dá-se o caso de editores desastrosos que falham sempre no casamento. As capas erradas, as tiragens erradas, a paginação errada, a tradução errada, a campanha errada...

Um exemplo cómico e fácil é o dos amadores que, no Youtube, colocam um diaporama de imagens bonitas a acompanhar uma canção. Como é a título gracioso não critiquemos muito, mas são um bom meio de percebermos como a inadequação pode ser desastrosa.

Por outro lado, haverá quem goste...

Este caso aqui - de uma canção de Chico Buarque - é engraçado.



A canção é sobre a aceitação da diferença, a velha história de sacrifício, oportunismo e ingratidão, bem como a diferença entre moralismo hipócrita e integridade individual.Faz parte da Ópera do Bom Malandro, uma peça de Chico a partir da Ópera dos Três Vinténs de Brecht e Kurt Weil.

Infelizmente, o editor do vídeo não achou assim. Mas, felizmente para nós, ajuda-nos a compreender o princípio da adequação.



O face:






segunda-feira, 10 de outubro de 2022

O PLÁGIO, SEMPRE O PLÁGIO

Uma das coisas mais perversas num plágio é ser manhoso pois, com sorte, o plagiador pode fingir com sucesso que é apenas um acidente. Nos transportes públicos acontece muito, com os carteiristas: quando topamos que nos estão a meter a mão no bolso fazem sempre um ar inocente. «Foi sem querer, ó amigo.»


E os desculpadores dos plágios, que pelos vistos abundam nesta chafarica, mais os próprios plagiadores, depois sugerem sibilinos: «Toda a gente rouba, amigo.»

Esta do «toda a gente rouba» é a mais bera das tretas. É que terraplana tudo: um miúdo que surripia uma chiclete passa a ser igual ao escroque que abafa as economias a milhares de emigrantes.

A mim já aconteceu um par de vezes: fazer um comentário que acho espirituoso e, depois, descobrir (ser-me chamado à atenção) que alguém chegou lá uma hora antes.

Por isso mesmo o plágio – quando é mesmo plágio – é de um oportunismo sórdido. De facto, as coincidências existem! Só que estas, ao contrário dos plágios, caracterizam-se por serem involuntárias.

Por exemplo, há assuntos que pedem respostas inspiradas bastante próximas. Quando foi do ataque ao Charlie Hebdo, muitos cartoonistas mundo fora fizeram um desenho onde mostravam que a pena era mais forte que a espada, ou troçavam dos terroristas retratando-os em pânico com um desenho.

Não se plagiaram. Ocorreu-lhes, perante um mesmo problema, uma resposta parecida.

Fernando Pessoa escreveu, em Lisboa, que era outro. Décadas depois, em Nova Iorque, Woody Allen escreveu que gostaria de ser outro. Antes, Rimbaud escrevera que «eu é um outro». São variantes à volta do mesmo. São jogos lógicos. Tal como as posições do Kamasutra, se as pessoas tiverem tempo nas mãos em qualquer parte do mundo chegam lá, porque a combinatória erótica entre dois corpos é como o cubo de Rubik – só que com mais graça.

Até nos livros. É comum terem ideias ou fórmulas próximas. O soez é quando um faz corta-e-cola do outro. O plagiador aposta na nossa ignorância, mas ele sabe que copiou. Sabe que está a reclamar um mérito que não é seu.

Não tem mal que o carteiro de Pablo Neruda use, com a autorização deste, poemas de Neruda para impressionar a namorada. Um bocadinho mais chato seria se fosse ele, todo lampeiro, a ir receber o Nobel e o respectivo cheque.

Num teste de Matemática, não tem mal se os alunos chegarem ao mesmo resultado. Só que, no meio dos que chegaram lá pela própria cabeça, há sempre um sonsinho que espreita para o lado.

Há anos, um fulano copiou descaradamente um ensaio meu. Passagens inteiras. Não fiz um escândalo, estas manchas não devem ficar para sempre, mas comuniquei a um membro do dito grémio, para que tratassem interinamente do assunto. Ficaram em pânico: não queriam queimar as mãos com o berbicacho. Eu que escrevesse um texto a queixar-me. Isto depois de eu ter feito o que me cabia: enviara passagens lado a lado para compararem.

Por acaso descobri o plágio porque, num jornal online, vinha em destaque uma citação desse senhor. Eu achei-a tão linda e tão fofinha, com uma melopeia tão maneirinha, que murmurei: «Esta parece minha.» E era.

Há aqui um pormenor com graça: um tipo que há décadas me tem um pó dos diabos escreveu (eu guardo estas coisas) que «finalmente» alguém tinha escrito uma coisa de jeito sobre o Vilhena. Como o que ele elogiou era meu (mas fê-lo por não saber que era meu), espero um dia ter oportunidade para lhe agradecer.

E os que acham que os plágios não têm importância são uns finórios. Se vivêssemos numa comunidade onde não houvesse rivalidades, prémios, benefícios vários, a autoria poderia diluir-se. Mas imaginem que, à custa do vosso trabalho, alguém vos fica com tudo. E vos esbulha e fica com o vosso emprego e, quando vocês protestam, são postos na rua e tratados como lixo.

Ao menos o Cyrano de Bergerac, na peça homónima, ofereceu os seus versos e emprestou voluntariamente a sua voz ao moço que com ele disputava o coração da amada. Ainda assim, lixou-se.

Já agora, o homem que me plagiou o dito ensaio (é de trinta e tal anos) tem até às 24h de quinta-feira para me enviar cinco mil euros.

(Estou a brincar, a chantagem é um vício ainda mais triste.)



domingo, 9 de outubro de 2022

sábado, 8 de outubro de 2022

Moral tribal e boas práticas

Diz no FB Nelson Zagalo:

«Um cronista do Público (Vítor Belanciano) é apanhado a cometer plágio — copia frases inteiras de uma crónica do El País. A leitora (Joana Fillol Guimarães Lopes) que apanhou o plágio comunicou diretamente à direção do jornal, ao autor, e ao provedor. E o que faz a direção do jornal Público? Ao fim de uma semana coloca um aviso na crónica dizendo que a crónica enferma "da repetição integral" de texto de outrém. 


«Ou seja, o Plágio no Público passou a chamar-se Repetição.


«Nem uma palavra sobre plágio. Nem uma palavra sobre o autor do plágio. Nem uma palavra sobre a posição do jornal. Escudando-se no Provedor que escreveu um texto sobre o assunto no qual se limita a repetir as palavras da leitora que identificou o plágio sem mais. Mais. O cronista em questão não é alheio a estes problemas de plágio, já houve acusações anteriores.

«Entretanto hoje, passadas várias semanas, o cronista continua a publicar textos no mesmo jornal.

«É caso para dizer, só mesmo em Portugal.

«ATUALIZAÇÃO: o Público resolveu agora mudar totalmente a apresentação do artigo, etiquetá-lo no título com Plágio, e fazer toda uma explanação do que foi ou não plagiado.

.

«Texto com plágio e pseudo-alerta do jornal: https://www.publico.pt/2022/09/18/opiniao/opiniao/sociedade-avaliacao-continua-2020974

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«Texto plagiado: https://elpais.com/ideas/2022-07-27/la-sociedad-conspira-para-minar-nuestra-autoestima.html

.

«Texto do provedor: https://www.publico.pt/2022/10/01/opiniao/opiniao/plagio-2022462

.» Fecha aspas

Texto da leitora que detetou o plágio, relatando toda a interação com a direção do jornal e o provedor: https://www.facebook.com/joana.g.lopes/posts/pfbid02a19k3UNcKrByVQVSgdMuzhE2PBcncvJyzn58wTdYksuMoPYmXNzDDMf3R3qJGGX2l

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Ilustração: Mark Airs, https://markairs.com/

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Aula 3: tópicos

Meter o pé. Endogamia. Roda dentada: muitas profissões comunicantes (desde revisor a tradutor, de escritor fantasma a spin doctor ou diretor de comunicação do Sporting). Cunhas ou networking? «Tu és o teu cartão de visita.» 

Cinco dedos: foto, bio, sinopse, trechos, elogios. Ou etc:  ou nada. Mas a matriz de base é esta.

TPC: uma contracapa. Ver livros concretos, têm sempre mais imaginação que nós: «Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que em toda a tua filosofia» (Hamlet, acto 1, cena 5). 

O bom casamenteiro. Nunca ter flatulência antes do casamento. Encher chouriços. A importância do espaço vazio: Eugénio de Andrade. O caso da capa de Lídia Jorge.

A Ted Talk de Chip Kidd, para quem quiser rever 

O caso do plágio abafado merece uma entrada só sua.




terça-feira, 4 de outubro de 2022

Fragmentos de um discurso amoroso (um verbete)

Fragmentos de um discurso amoroso é o Annie Hall de Roland Barthes, do tempo em que as ideias ainda não vinham todas da América. Barthes escreve sobre o amor e diz: sou um filósofo mas também um linguista mas também um professor de literatura mas também um escritor mas também um tipo que gosta muito de cinema mas também alguém que ama e tem histórias passadas e, se Deus quiser, futuras. E como sou essas pessoas todas tenho de comentar por elas. O livro é um fragmento composto de fragmentos porque não há totalidade nem ambição de lá chegar. Tenta ser um dicionário incompleto de um mapa de lugares amorosos (o beijo, a sala de cinema, o banco de jardim, as nossas músicas, a primeira zanga, os «não posso viver sem ti», os «Destruíste a minha vida!!!») e é um fascinante emaranhado de notas de rodapé. O meu exemplar, de 1981, tem ainda uma outra nota de rodapé: os comentários que fui fazendo à margem, ora anuindo («Bolas, é mesmo assim») ora discordando com veemência («O menino Roland tá parvo!»). É capaz de ser o meu bem mais precioso, a seguir ao pedaço do nariz da esfinge que me venderam no Cairo. 

Uma livraria curiosa

  A Greta . Ainda não fui lá, embora nem seja longe de onde moro.