terça-feira, 7 de março de 2023

João Morales

 Para uma pequena bio, ver aqui. Em 10 de Abril de 2020 (a data é importante), o João Morales publicou este texto no Público.

Testemunho de um TI com baleia ao fundo

Chamem-me João.

Sou trabalhador independente (TI), realidade laboral que, com a pandemia, ganhou alguma visibilidade, pela necessidade de alertar para as disparidades que nos encurralam, apesar de colocarmos igual empenho, profissionalismo e dedicação fiscal ao de qualquer outro trabalhador que tenha um patrão, um contrato, um rendimento assegurado quando a facturação atinge o zero. A natureza dos rendimentos de um TI oscila muito – num mês (ou mesmo num trimestre) pode ser de milhares de euros, noutro pode ser nulo.

Vamos por partes. Sou jornalista. Fiz o meu estágio no Diário de Notícias, em 1993. Em Janeiro de 1997, entrei para os quadros do vespertino A Capital. Fui fazendo o meu percurso na profissão, crescendo nela, até assumir a direcção da revista mensal Os Meus Livros, no final de 2004, até 2012. Ou seja, de 1993 a 2012 fiz, única e exclusivamente, jornalismo, passando pelos diferentes escalões profissionais, de estagiário a director.

Com o fecho definitivo da revista, em 2012, num meio profissional completamente distinto daquele em que me formei, não conseguindo colocação numa redacção, tinha dois caminhos. Evitando render-me a um emprego despersonalizado cuja parca remuneração seria acompanhada por uma óbvia frustração, optei por me aventurar como TI, não apenas como jornalista, mas encontrando nos ensinamentos que uma profissão com essa grandeza transporta fórmulas para conjugar comunicação e cultura. Como diriam alguns gestores, fiz um spin-off da minha actividade.

Nestes oito anos, em paralelo com algumas colaborações na imprensa escrita, criei ciclos com escritores (como faço há anos com a autarquia de Santiago do Cacém, e fiz durante dois anos e meio na Livraria Almedina); entrevistas de vida ao vivo (durante três anos, com a autarquia de Almada); moderei inúmeras conversas em festivais literários (Ovar, Chaves, Sabrosa…) e ciclos diversos (como o Com Todas as Letras, na Sociedade Portuguesa de Autores); desenhei formatos para levar a BD ou a poesia a crianças e jovens (em bibliotecas e escolas); concebi o projecto Literatura Língua Comum, para o Programa Escolhas; levei “25 Músicas para o 25 de Abril” a bibliotecas e escolas; dinamizei formação sobre aspectos menos comerciais da História da Música, integrei colectivos que juntam a palavra dita e a música (em torno de Marquês de Sade, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa ou Miguel Torga).

Alguém que durante três meses passa um recibo de 400 euros não sobrevive nos três seguintes com um terço disso

Destaco, claro, o festival Livros a Oeste, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã desde 2012, para o qual faço a programação (manhãs, tardes e noites) e moderação das mesas. Este ano, seria de 12 a 18 de Maio, por isso, o pico de adrenalina que costuma ser essa semana para toda a equipa será em 2020 substituído pela chegada do pico da pandemia, a crer em algumas previsões.

Olhando para todos estes projectos, por vezes, penso: jornalista? Divulgador? Artista? Programador? Dinamizador? Empreendedor? Uma coisa é certa: TI. Tudo a recibos verdes. E tudo isto impossível de levar a cabo neste momento.

O medo da incerteza a cada mês e a procura constante de novos clientes (new business, como dizem na Economia). O salto sem rede. Um TI não tem qualquer vínculo a quem o contrata e, para poder receber um subsídio de desemprego, tem de ter mais de metade do seu rendimento proveniente de um mesmo cliente. É fácil de entender a raridade da situação (pensem num electricista, num canalizador, no senhor que chamamos para pintar a sala ou arranjar o esquentador).

A primeira frase deste artigo não é inocente; alguns terão reconhecido o início de Moby Dick, a odisseia do Capitão Ahab, navegando enlouquecido atrás da baleia branca que lhe levou a perna. Para que não nos afundemos na voracidade de ultrapassar esta conjuntura, é preciso olhar para os TI com clareza e entender que alguém que durante três meses passa um recibo de 400 euros não sobrevive nos três seguintes com um terço disso, depois de a baleia Covid lhe ter mastigado ambas as pernas. Como diria o grande Mário de Carvalho, era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto…


domingo, 5 de março de 2023

sexta-feira, 3 de março de 2023

Adenda à aula 2

1. Fico contente por a turma ter crescido (de um bando dos quatro passámos para uns famosos sete), por isso não houve folhas de apoio para todos. Envio por mail para quem pedir.

2. Todos os dias há nos jornais coisas que nós podem interessar. Hoje, no The Guardian (que está em canal aberto, pedem que assinamos, mas não obrigam), o que me saltou à vista como uma bonita definição do editor ideal:

Pode ler o artigo completo aqui.


Anexo: mensagem 7/3

Meus caros, é mais uma chamada: ganhem por favor o hábito de consultar o blog da cadeira. 

Faz dois dias que a vossa colega Catarina colocou uma ligação para um trabalho do João Morales (nosso convidado de amanhã) e, embora com os motores de busca todos possam investigar, eu coloquei agora um perfil que ele fez (digamos, um estado da arte) no início da pandemia. 

Quanto aos exercícios (revisão, tradução, edição etc.): nada como a prática quotidiana para apurar a mão, até a componente técnica deixar de ser técnica e se tornar quase uma segunda natureza. Cinco a dez minutos chegam e sobram – têm é de ser regulares. 


quarta-feira, 1 de março de 2023

Roald Dahl

 Aproveitando a boleia da publicação anterior, deixo aqui um link relativo à última polémica internacional do mundo da edição, já um pouco ressessa ao dia de hoje.

De qualquer forma, aqui fica: https://www.theguardian.com/books/2023/feb/18/roald-dahl-books-rewritten-to-remove-language-deemed-offensive


Até já!

João

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Aula 2: exercícios e outras questões menores

 Nem o Chatgpt nem os Embaixadores da Inclusividade são o nosso tema principal, nem sequer são o elefante na sala — mas são o mosquito que zumbe, zumbe, zumbe no caneco.

Não nos merecem muito tempo, porque no-lo tomarão sem pedirem licença, mas pedem alguma reflexão. 

  1. Haverá censura boa?
  2. Editar não será já censurar?
  3. Para onde ir quando a IA for melhor que nós?
  4. (A escrever, a rever, a editar, a publicar,  a divulgar, a promover, a vender, a premiar, a dar aulas?)
Alguns elementos de revisão, segundo o Prontuário Ortográfico (1999: 334-335):



De notar que, se a sinalética pode variar, o importante é a comunicação ser clara para ambas as partes. 
A sinalética aprende-se, é técnica; rever já é humano, implica talento, experiência, atenção, leituras, sensibilidade ao texto. 

Entrementes, já há 'ameaças' à profissão de jornalista...



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Plano da cadeira de TÉCNICAS DE EDIÇÃO 22-23

·        Intratexto. Paratexto. Interpessoal. Intertextual.

·        Método SER©: Simplicidade, Economia, Rigor

·        Em princípio, teremos três masterclasses com convidados de luxo.

 

1.      Revisão de um texto (à laia de aperitivo)

2.      Crie uma editora (em 20 minutos)

3.      Uma anedota breve – b) ajudar a melhorá-la

4.      Qual foi o último livro que comprou e onde?

5.      Indique a sua editora favorita

6.      Cinco grandes títulos

7.      Tradução

a.       Dificuldades óbvias

b.       Falsos amigos

c.       Traduttore/traditore

d.       Fidelidade à forma ou ao conteúdo?

e.       E quando a forma é o conteúdo e vice-versa?

f.        Fidelidade ou lealdade?

g.       Língua de partida e língua de chegada

8.      Técnicas de marketing

a.       Como mostrar o livro às pessoas?

b.       Como convencer as pessoas a interessarem-se por ele?

c.       Como convencer as pessoas a pensarem comprá-lo?

    1. Pior: como fazer sequer com que algumas pessoas (pelo menos, o público-alvo potencial) saibam que o livro existe?

9.      Comunicado de imprensa (Press-release)

10.  Encontre um artigo interessante online de acesso livre e partilhe

11.  Pontuação

12.  Gravação de leitura

13.  Pensar fora da caixa

14.  Análise SWOT (VFOA – vantagens, fraquezas, oportunidades, ameaças)

15.  Treinar a mão com as caixas de comentários

a.       Ajudar a insultar melhor

b.       Ajudar a dizer melhor

16.  Contracapa

17.  Tradução

18.  Exercício de revisão

19.  A máquina de contar («esta é a história de…»)

a.       Aplicação

b.       Andaime: deixar ou, no fim, retirar?

20.  Livro infantil

a.       Escrita

b.       Edição (do livro do colega)

c.       Apresentação

d.       Principais dificuldades

21.  Catalogando um texto ou livro

22.  Booktrailer/vídeo-livro

23.  Aplicação método SWOT

24.  Faça perguntas ao texto

25.  Acertar com o molde (os melhores textos saem fora, mas até esses ganham em ser abordados em função dos moldes existentes

26.  Calcular a tiragem de um livro – e explicar os critérios

27.  Contrato

a.       Princípios básicos do contrato

b.       Cedência de direitos

c.       Domínio público

d.       Nunca de crédito

28.  Cartoon BD (adequação)

29.  Recensão

30.  Recomendação de livro

31.  Faça uma apresentação de produto (Sales pitch)

32.  Título e destaque

33.   Pontuação Guidinha

34.  ISBN e depósito legal

35.  Mudar, num texto, de perspetiva (p.ex, tempo e modo verbal, pessoa)

36.  Crie uma editora ou uma coleção

37.  Planeie um calendário editorial

38.  Considere as muitas tarefas e funções implicadas num só texto/livro

39.  _________________________________

40.  _________________________________

 

Erros comuns

·         Linhas caídas e páginas penduradas (solteiras e viúvas)

·         Tradução: os falsos amigos

·         Tradução: o excesso de confiança

·         Com a gráfica: fraca comunicação

·         Editoras: esquecer a revisão

·         Autores: a palavra do autor é sagrada.

·         Tradução à francesa: melhora desnecessariamente o texto.

·         Entender o universo visual e linguístico do autor

·         Aceitar o texto – acreditar, à partida, que está tudo certo

·         Arrogância adolescente: criticar os outros, mas esperar que nos aplaudam intenções

·         De o Sousa – do Sousa    É a vez de o Sousa passar a bola. A bola é do Sousa.

·         Porque motivo os jogadores. Por que motivo tem Mourinho tanto sucesso?

Dicas:

·         Aproveitar a neura para fazer tarefas mecânicas.

·         Slay your dragon in the morning/comida para o dragão.

·         Antecipar as jogadas e as dificuldades.

·         Aprender a encurtar os prazos. Caem sempre à sexta.

·         O tratamento de texto faz-se por camadas. Usar bem o computador.

·         O péssimo editor deita fora partes boas.

·         O bom editor deixa de fora as partes más.

·         O melhor editor deixa de fora partes boas.

Digital/offset:

·         De que serve eu levar um chapéu bonito se tenho a roupa suja?

·         Quadricomia para as fotos: depende do livro. Sebald. 

 

Exercício 1: revisão de texto

 

Após todos os exemplos que mostrei tudo o que alterei no decorrer do estágio, e após os exemplos que mostrei, pergunto-me até que ponto é que podemos alterar a “interpretação” do tradutor? É uma questão com a qual cada mais me debato, sendo que é do trabalhho do tradutor de que estamos a falar. Penso que pode ser necessário mudar, e se assim for devemos fazê-lo isso, mas ter sempre em conta o trabalho do colega e tentar não alterar totalmente a interpretação

feita.

Outra questão na na qual é inevitável pensar é, nesta altura que ainda estamos a viver o mercado livreiro vai conseguirá recuperar? O que se segue no mercado editorial? Será, que o os leitores (e o mercado editorial no geral) irão aceitar novas formas de leitura? Pode ser que seja agora que Portugal aprofunde e se renda à leitura e1etrónica. A meu, ver até, poderá ser ma estratégia, sendo que os eBooks são mais baratos, o gue pode ser ser apelativo.

E mais soluções? Os nove autores poderão ter a oportunidade de devulgar a sua história e a sua intenção transmitir; os formatos dos lançamentos poderão serão repensados, os temas dos livros serão, mais do que nunca, uma boa aposta.

E as editoras, continuararão a ser fábricas de todo, o tipo de ivros, ou também se irão adaptar às exigências e circunstâncias dos dias de oje?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para nota, podem propor o que quiserem. Falem comigo e veremos, com calma, se a vossa ideia cabe no âmbito da cadeira. Entrementes, aqui ficam algumas

 

Sugestões de trabalho final

 

Grupos de dois, pelo menos. Pegando num tema de edição - à sorte e/ou por escolha, tipo quem chega primeiro escolhe, quem se atrasa fica com os restos - e fazendo um capítulo sobre esse assunto.

 

Seria um projeto de investigação. Em pares: com um autor e um editor.

 

Que depois trocam de papéis, noutro artigo. Um piloto e um navegador.


Temas, sei lá, tipo: 

  • O novo marketing
  • Cenários de futuro
  •  O editing
  • Como vender livros na era das TVs
  • O papel do editor hoje
  • Criando uma agência literária
  • A edição online - como lucrar com ela?
  • Pai, criei uma editora!
  • A educação do gosto: que livros escolher?
  • Impossibilidade/necessidade da tradução
  • Como destruir uma editora
  • 24h na vida de uma editora
  • E-livros
  • Qualidade e publicabilidade: por que raio merece este livro ser publicado?
  • etc.

Uma livraria curiosa

  A Greta . Ainda não fui lá, embora nem seja longe de onde moro.