quarta-feira, 26 de abril de 2023

Sumário aula 9 (26/4)

1. Pequeno exercício: escolher um livro da banca junto à sala 210. Porque o fizemos? Quem fez a melhor escolha? Isso não tem importância, pois não? Mas, não tendo à mão um “estudo de audiência”, podemos fazer um exercício de auto-avaliação.

2. Apresentação dos trabalhos. 

2.1. Todos cumpriram. Parabéns!

2.2. Todos podem/devem ser ainda melhorados. Mais parabéns ainda!

3. Mudança de sala, por falha técnica (perdemos 15 minutos)

2.3. continuação das apresentações e dos comentários

2.4. Repararão talvez que fiz um pequeno salto neste sumário, porque

2.4.1. o posso fazer

2.4.2. se dominarmos as regras, podemos subvertê-las.

4. Minudências: aspas, travessões

5. A utilidade das fôrmas e sua aplicação a testar o produto 

6. Um pequeno post scriptum, cortesia de Michael Caine




7. Por último (em jeito de pós P.S.), uma coleção onde o designer se esqueceu de comunicar. E, nitidamente, se considera mais importante que o livro. Acontece, por vezes. 




domingo, 23 de abril de 2023

Ai a loucura

 Por acaso acho que esta é uma solução prática para os problemas que a AI vai trazer: podemos não ser apanhados mas, se o formos, a sanção será draconiana. 


«Foi despedida a editora da Die Aktuelle, revista germânica que publicou uma entrevista a Michael Schumacher realizada com recurso a Inteligência Artificial (IA). Na edição de 15 de Abril, a publicação anunciou um “exclusivo” com o antigo campeão de Fórmula 1, longe dos olhares públicos desde que sofreu um acidente grave em Dezembro de 2013 nos Alpes franceses. Tudo não passava, porém, de uma "conversa" com um bot de IA, que assumia as respostas que Schumacher daria às questões colocadas.

«"Este artigo sem gosto e enganador nunca devia ter aparecido. Não cumpre os padrões de jornalismo que nós – e os nossos leitores – esperamos", lamentou Bianca Pohlmann, directora do grupo Funke que detém a publicação Die Aktuelle. Anne Hoffmann, chefe de redacção que "detinha responsabilidade jornalística pela revista desde 2009" foi afastada. (...)»



quinta-feira, 13 de abril de 2023

Vocês sabem lá o que é o amor (uma noite com o Charles Bukowski), Raymond Carver
 

Vocês sabem lá o que é o amor disse o Bukowski
Tenho 51 anos e vejam só
apaixonei-me por uma gaja nova
estou apanhado mas ela também está pelo beicinho
tudo certo pá isto é mesmo assim
Entro-lhes no sangue e não conseguem ver-se livres de mim
Elas bem tentam fugir de mim
mas acabam todas por voltar
Todas voltaram exceto
aquela que eu espanquei
Chorei por causa dela
mas nesse tempo chorava com facilidade
Não me deem cenas fortes
que eu fico mau
Podia ficar aqui sentado a beber cerveja
convosco a noite inteira, seus hippies
podia beber dez litros desta cerveja
e nada tal e qual como água
Mas dêem-me uma cena forte
e começo a empurrar pessoas pelas janelas fora
atiro qualquer um pela janela
já fiz isso
Mas vocês sabem lá o que é o amor
Não sabem porque nunca
estiveram apaixonados é simples
Tenho uma gaja nova percebem é linda
Chama-me Bukowski
Bukowski diz com aquela vozinha
e eu pergunto Hã
Mas vocês sabem lá o que é o amor
Estou a dizer-vos
mas não estão a ouvir
Nem um de vocês nesta sala
reconheceria o amor se ele se aproximasse
e lhe rebentasse o cu
Pensava que as leituras de poesia era uma treta
Ouçam tenho 51 anos e já vivi um bocado
eu sei que são uma treta
mas disse a mim próprio Bukowski
passar fome é uma treta ainda maior
Aí estão vocês e nada é como deveria ser
Aquele tipo como se chama Galway Kinnell
Vi a fotografia dele numa revista
Tem uma carinha laroca
mas é professor
Céus, já imaginaram
Mas vocês também são professores
e eu para aqui a insultar-vos
Não, não ouvi falar dele
nem dele
São todos umas térmitas
Talvez tenha a mania, já não leio muito
mas esta gente que constrói
reputações com cinco ou seis livros
térmitas
Bukowski pergunta ela
Por que ouves música clássica o dia todo
Conseguem imaginá-la?
Por que ouves música clássica o dia todo
Estão surpreendidos, não estão
Nunca diriam que um sacana bruto como eu
conseguisse ouvir música clássica o dia todo
Brahms Rachmaninoff Bartok Telemann
Foda-se eu não conseguiria escrever aqui
Demasiada calma demasiadas árvores
Gosto da cidade, isso sim é para mim
Ponho a minha música clássica todas as manhãs
e sento-me em frente da máquina de escrever
acendo um charuto e fumo-o assim, estão a ver
e digo Bukowski és um homem de sorte
Bukowski passaste por tudo e mais alguma coisa
e és um homem de sorte
E o fumo azul desliza pela mesa
e eu vejo a Avenida Delongpre pela janela
e vejo as pessoas a calcorrear os passeios
e dou uma passa no meu charuto assim
e depois pouso o charuto no cinzeiro assim e respiro fundo
e começo a escrever
Bukowski isto é que é vida, digo
é bom ser pobre é bom ter hemorroidas
é bom estar apaixonado
Mas vocês sabem lá o que isso é
Não sabem o que é estar apaixonado
Se a vissem perceberiam o que estou a dizer
Ela pensou que eu vinha para cá comer outras
Tinha a certeza
Disse-me que tinha a certeza
Porra tenho 51 anos e ela 25
e estamos apaixonados e ela tem ciúmes
Céus é lindo
ela disse que me vazava os olhos se eu viesse cá
e dormisse com outra
Isto é que é amor
O que é que vocês sabem disto
Deixem-me que vos diga
conheci tipos na prisão que tinham mais pinta
do que o pessoal que ronda as universidades
e vai a leituras de poesia
São uns vampiros que vêm aqui ver
se o poeta tem as meias sujas
ou se fede dos sovacos
Acreditem que não os desiludirei
Mas quero que se lembrem disto
só há um poeta nesta sala esta noite
um único poeta nesta cidade esta noite
quiçá um único poeta de verdade neste país esta noite
e esse sou eu
O que sabem vocês da vida
O que sabe cada um de vocês sobre o que quer que seja
Qual de vocês já foi despedido
ou já bateu numa tipa
ou já apanhou de uma tipa
Fui despedido do Sears and Roebuck cinco vezes
Despediam-me e depois voltavam a contratar-me
Era repositor deles aos 35 anos
e fui despedido por roubar bolachas
Eu sei como é já passei por isso
Tenho agora 51 anos e estou apaixonado
Esta miúda diz-me
Bukowski
e eu respondo Hã e ela diz
És um merdas
e eu digo querida tu compreendes-me
Ela é a única gaja no mundo
homem ou mulher
de quem admito isso
Mas vocês sabem lá o que é o amor
E todas elas acabaram por voltar
cada uma delas voltou
exceto aquela de que vos falei
a que eu espanquei Estivemos sete anos juntos
Bebíamos imenso
Vejo uns quantos datilógrafos nesta sala mas
não vejo nenhum poeta
Não me admira
É preciso ter estado apaixonado para escrever poesia
e vocês não sabem o que é estar apaixonado
é esse o vosso problema
Dá-me dessa mistela
Isso mesmo pode ser sem gelo
Está bom assim está ótimo
Bem vamos lá começar isto
Eu sei o que disse mas tomo só um
Sabe mesmo bem
Ok vamos lá despachar isto
mas depois ninguém fique perto
de uma janela aberta


Trad. Catarina Santiago Costa


Sumário da aula 7 (em construção)


Sei que estão cansados, mas os exercícios devem ser diários, até que a técnica adquirida se torne uma segunda natureza. Isto, naturalmente, se queremos a excelência numa área: a história d'A Princesa & a Ervilha implica duas coisas: a) que ela sinta a ervilha mesmo debaixo de uma quantidade de colchões; b) que ela goste de ter essa hiper-sensibilidade. 

Próxima aula, a segunda Masterclass com: Sofia Madalena Escourido, editora no grupo Leya.  

1. O exercício do livro infantil tem muitas vitaminas. Mas só fazendo-o nos daremos conta disso. Ficou combinado que, dentro de duas semanas, fareis uma apresentação com imagem. 

2. Exercício em aula: a carta do João. Um texto sublinha sempre emissor, mensagem ou receptor. A carta do João centrava-se excessivamente (acho, é apenas a minha opinião informada, não voz divina ou científica) no emissor. Aprendemos muito, creio, com aquele «Olá» e a exclamação final, mais o «Sem mais para acrescentar, vou ficar aqui a falar durante mais 30 linhas». 

(A minha percepção é que foi um trabalho bastante interessante. Mas, lá diz o provérbio guineense, quem sabe se a sopa está boa não é quem a faz, é quem a come.)

3. Por falar em sopa: imaginem a mesma sopa servida numa malga bonita ou numa malga suja, cheia de dedadas por fora e cabelos por dentro, talvez até uma ou outra mosquita. Fica agora claro o insuportável que, para quem saiba ler, é um texto cheio de redundâncias, frases mal construídas, vírgulas anárquicas, ninharias várias a olho nu? 

4. Por falar em provérbios, gosto muito do «Até ao lavar das cestas é vindima» e do que está no epílogo de Como fazer uma tese de Umberto Eco (1977): «Vorrei concludere con due osservazioni: fare una tesi significa divertirsi e la tesi è come il maiale, non se ne butta via niente. (...) L’importante è fare le cose con gusto.» 









quarta-feira, 5 de abril de 2023

Sumário da aula 6 (29/3): moldes, modelos, fôrmas e formas

Primeiro, a partilha de uma entrevista interessante sobre edição, escolha, linhas de força e censura aqui.

E agora o sumário da aula:

1. Fizemos uma análise SWOT

É um esquema muito simples mas que ajuda a pensar. Podemos fazer variações complexas (enfim, não "podemos", devemos) mais adequadas a tarefas concretas, mas esta é um bom modelo e ajuda a ponderar questões tão díspares como:

  • Devo ir morar para outra cidade?
  • Entrar neste mestrado?
  • Criar uma livraria ou um bar?
  • Escolher uma linha editorial mais comercial ou de culto?
  •  Podemos publicar este livro? E, se sim, que tiragem?

2. Moldes e fôrmas

Para fazer um bolo, ajuda ter uma fôrma. Para fazer um círculo certinho, ato dois paus com uma corda e prendo um, andando com o outro à volta. De igual modo, há modelos que nos ajudam a criar/editar um texto ou a ver (até combinando com o modelo SWOT) o que funciona.

2.1. Princípio narrativo: esta é a história de ____ que mais que tudo quer ser ____, mas não pode porque _____. 

Exemplo aplicado: esta é a história de Dumbo que, mais que tudo, quer ser um elefante normal, mas não pode porque tem as orelhas demasiado grandes

(De seguida: obstáculos, insucesso, desânimo, perseverança e — taraan — superação. O defeito de Dumbo é afinal o seu super-poder: um elefante que voa.) 

2.2. três actos (mas o segundo desdobra-se em dois. 

  1. Era uma vez um reino
  2. Um dia houve uma mudança/como se lidou com essa mudança 
  3. E viveram felizes para sempre

3. Faça um livro infantil 

  • Público -alvo: 3-6 anos
  • 20-22 páginas
  • 1-3 linhas/frases por página
  • Contar com ilustração (sugestão: faça já os desenhos, mesmo que não saiba desenhar)

Em aula, ouvimos as histórias, umas já quase prontas, outras ainda nem por isso. 

Acredito mesmo no que podemos aprender fazendo este exercício. Se quiser, fale comigo por mail. Apresentações mais preparadas na próxima semana. 












Exercício 



Uma livraria curiosa

  A Greta . Ainda não fui lá, embora nem seja longe de onde moro.