quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Notas da aula de 24/11

1. A colaboração entre Gordon Lish e Raymond Carver é uma das mais notáveis entre um editor e um autor. Nem sempre é bonita. A narrativa em volta é fascinante. Há muitas ligações para artigos interesssantes na internet. Colocando 'Gordon Lish Raymond Carver' chega a elas. Eis uma.

2. Um caçador tinha um cão e a mãe do caçador era também o pai do cão.  

3. Aqui vai a «solução» para o exercício da pontuação com o artigo de Ferreira Fernandes.

4. «Tu és o teu cartão de visita.» A experiência tem os seus méritos, mas o potencial também. Essa é a vossa vantagem no mundo profissional. 

5. Editoras que investem, editoras que contam com apoios para reduzir (ou neutralizar mesmo) o risco, editoras cujo cliente não é mais o leitor mas o autor. 

6. Racionalidade e irracionalidade no mundo editorial (cf. Bailey, na bibliografia).

7. A promoção de um livro tornou-se mais difícil que a produção. 

8. As gavetas enganam. São úteis, mas não podemos acreditar piamente na linearidade do esquema. (Exemplo: os mapas bidimensionais que criam a ilusão de uma enorme distância entre extremos que na verdade se tocam. Tal como a ikusão de um centro: a Europa não fica no centro - nos mapas europeus fica. A Terra é redonda.)

9.     

 

 

 

MAL – Mercado Aberto do Livro | 17-19 Dezembro

proposta para este fim de semana !

https://antigona.pt/blogs/lancamentos/mal-mercado-aberto-do-livro-17-19-dezembro-no-antigo-mercado-do-rato

e para apoiar as editoras independentes em Portugal:

https://www.reli.pt/



Proposta de definição: Edição crítica

Se partimos do princípio que exercer uma crítica é a avaliação de algo, podemos chegar a conclusão que a edição crítica seria então por em causa o mercado editorial em si. Se pararmos um minuto para pensar no mercado editorial em Portugal para perguntarmos. Quantos livros escritos por mulheres já estudaram nas aulas? Quantas autoras podem citar de cabeça? (sem ser autoras do sec XX). Muito pouco imagino. Outra pergunta seria: quem publica quem em Portugal? Não será preciso muito tempo para perceber que são muitas as editoras a publicar sempre o mesmo tipo de autor, o mesmo tipo de texto. Nem tenho a certeza que sejam todos assim tão bons. O que seria hoje em dia o trabalho de uma editora? Criticar essa realidade e mudá-la. Ter menos medo de publicar livros feministas por exemplo, sem ser o papel de editoras independentes e especializadas, e tentar colmatar um vazio histórico.

 

Fontes: 

Já perdemos o medo de editar livros feministas? PUBLICO, 2018                                      https://www.publico.pt/2018/03/08/culturaipsilon/noticia/os-feminismos-na-literatura-sao-uma-tendencia-1805807

Esta nova editora só vai publicar livros escritos por mulheres. TIME OUT, 2022 https://www.timeout.pt/porto/pt/noticias/esta-nova-editora-so-vai-publicar-livros-escritos-por-mulheres-012622

5.3. Um romance é igual à Enciclopédia Britânica? (Editado)

 

 5.3. Um romance é igual à Enciclopédia Britânica?

Ambos são livros: capa, contracapa, lombada, miolo; porém, as semelhanças não se estendem muito para além disto. Aliás, é no miolo que reside a essência da sua diferença. São objetos da mesma natureza, mas com conteúdos e objetivos distintos[i].

O romance tem como objetivo – idealmente – deleitar o leitor ao puxá-lo para dentro de uma história, uma viagem, que, se for de qualidade, não fá-lo-á querer saltar fora antes do tempo. É um convite para ir à aventura que começa na primeira página e termina, se tudo correr convencionalmente bem, na última.

A Enciclopédia Britânica não nos promete uma viagem, no entanto, se soubermos o que procuramos, iremos folheá-la com um propósito claro, por outras palavras, um destino em mente. A Enciclopédia promete respostas às nossas perguntas preexistentes, em oposição ao romance que desperta perguntas que não nos tinham ocorrido antes, podendo ou não vir a satisfazê-las mais tarde no decorrer da leitura.



[i] É importante referir que, na atualidade, a Enciclopédia Britânica não é apenas um conjunto de volumes pesados e robustos. Esta modernizou-se e passou a estar disponível na leveza virtual da internet. Também os romances podem ser adquiridos por meios não físicos (i.e., Kindle, e-books), facilitando assim a sua aquisição, consulta e transporte.


Margarida Bastos

 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

4.2. A edição crítica (para aula de 17/11)

    Uma vez já dito em aula, “um editor é em primeiro lugar um leitor crítico”. Penso que o deve ser: porquê editar um livro?; qual escolher?; para quê?; para quem?; que olhar deve prevalecer sobre o texto? Não deixam de ser as mesmas questões de um tradutor diante de um texto.

    Há inúmeros fatores que contribuem para a tomada de decisões: público-alvo, perfil das coleções e editoras, livrarias, entre outros. No entanto, pergunto-me se há (e quais seriam) as fronteiras e as diferenças entre um crítico literário e um editor crítico. Talvez seja a finalidade: identificar que se espera de um editor que, além do conteúdo, ele avalie também a forma: desde a revisão textual até a composição do livro (capa, contracapa, a paginação e design completos). 

Está a salvo apenas da publicação e promoção da obra.


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

A origem do teclado QWERTY

Deixo aqui este fio de tuítes sobre a origem do teclado QWERTY e sobre os motivos para os teclados não estarem por ordem alfabética. 
Já não usei máquina de escrever excepto por diversão e curiosidade, mas tinha em casa uma máquina de teclado português HCESAR. E lembro-me de estar aflito para usar PC num cibercafé (o que é isso??) em Paris com os seus teclados AZERTY. Não é mofo, é história  :) 
o líquen:
https://mobile.twitter.com/culturaltutor/status/1592705013058801664

Abraços
Nuno V

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Sugestão de tradução do poema "Cheers" de Raymond Carver, por Nuno Silva

 

Brindemos!


Vodca seguida de café. Todas as manhãs

Penduro o sinal na porta:

SAÍ PARA ALMOÇAR

Mas ninguém presta atenção; os meus amigos

olham para o sinal e

às vezes deixam papelinhos,

ou então chamam-me – Sai daí e vem jogar,

Ray - mond.

 

Uma vez, o meu filho, aquele descarado,

entrou sorrateiramente e deixou-me um ovo colorido

e uma bengala.

Acho que bebeu um pouco da minha vodca.

E na semana passada a minha mulher passou por cá

com uma lata de sopa de carne

e uma caixa de lágrimas.

Ela também bebeu da minha vodca, penso eu,

depois partiu apressadamente num carro estranho

com um homem que eu nunca tinha visto.

Eles não compreendem; estou bem,

bem onde estou, um dia destes

deverei estar, deverei estar, deverei estar…

 

Pretendo demorar todo o tempo do mundo,

considerar tudo, até milagres,

mas permanecer alerta, cada vez

mais cuidadoso, mais atento,

com aqueles que pecariam contra mim,

com aqueles que roubariam vodca,

com aqueles que me fariam mal.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

As 50 Frases do Professor (Volume I)

Caros colegas,

Deixo aqui uma “selecta” de frases que o nosso professor foi proferindo durante as nossas aulas.

 

Caro professor,

Se alguma das citações estiver errada ou se for apócrifa avise-me, por favor, que eu corrijo ou faço como o Fernando Pessoa e apanho-as todas da calçada até construir um castelo.

Entendo que algumas tiradas são citações suas de outros autores; não presumo saber distinguir todas e por isso não as omiti ou assinalei. 

Em relação à falta de aspas, devo dizer que eram muitas, pôr os pontos finais já foi uma canseira, pelo que peço que considerem todas as frases devidamente aspeadas(?)

 

---- Citações (por ordem cronológica) -----

 

Editar é resumir e ampliar, fazer síntese e análise, sístole e diástole.

Todo o livro é um protótipo.

Antes de o texto ir para o editor/revisor deve ser auto-editado; não é por ter mulher-a-dias que devo atirar o lixo para o chão.

Errar é humano, editar é divino.

O poema é o oposto do ato de comunicação (falta-lhe eficácia).

Literatura é quando a forma está acima do conteúdo.

Há literatura quando alguém diz uma coisa nova de forma velha ou uma coisa velha de forma nova.

Em poesia, as reticências são como as gargalhadas nas sitcoms que indicam quando se deve rir.

As reticências são como uma bomba nuclear, devem ser usadas com parcimónia e só quando estivermos a perder a guerra.

A capa de um livro é uma destilação, um haiku.

O valor do texto é subjetivo; para o autor é um filho, para o editor pode ser apenas mais um (a não ser que ganhe um prémio), e para o leitor será outra coisa. [esta não apanhei bem]

Quem não quer ter nódoas não veste uma camisa branca.

Quando ataco à traição sou astuto, quando é o outro que me ataca, é um cobarde.

A partir dos 40 os leitores precisam de letras maiores. [lol]

Blurb: se a pessoa citada valer mais do que o lugar onde o texto foi publicado, destaca-se o nome da pessoa; ao contrário, o contrário.

Não lançarás livros depois de 6 de dezembro.

É boa ideia publicar livros alternativos fora da época alta (outubro, novembro) para não chocar contra os “petroleiros”.

A convicção de que um livro vai vender muito faz vender o livro.

A capa do livro serve vários senhores.

A capa e contracapa são funcionais.

Ter outros títulos da coleção na contracapa pode ajudar a vender o livro por contágio.

Uma editora define-se pelo seu catálogo; é o seu catálogo.

O livro tem valor simbólico.

O sucesso é todo afetivo e imaginário.

Todos os autores são comerciais: uns fazem tudo para vender, outros pouco, outros nada.

Nenhum editor de esquerda vos vai dar dinheiro.

O jornal é onde está o poder; o poder de quem escreve num jornal pertence ao jornal.

As línguas são organizações do mundo.

Sales pitch: quando? Sempre.

Os livros não caminham pelo próprio pé, alguém tem de os levar.

Querem vender livros? Tornem-se Pop Stars.

First you get the money, then you get the power, then you get the girl.

Editar é ler e escolher. Traduzir é ler e escolher.

A cultura (a universidade) é o oposto do fascismo.

Traduzir de PT (PT) para PT (BR): se for literatura, não se mexe.

O ato de editar é o que separa os amadores dos profissionais.

A bibliodiversidade está a passar um momento mau, em parte devido à tradução a partir do Inglês.

Para conseguir chegar à fala com qualquer autor em feiras internacionais: ser jornalista ou agente.

O agente literário é o topo da cadeia alimentar.

Hoje, o leitor manda no mercado do livro. Quando o leitor manda, o mercado torna-se semelhante ao da televisão: horário nobre para o programa pobre, horário pobre para programa nobre.

Ter números no título aumenta o seu apelo.

Negócio é a negação do ócio.

O belo não é o bonitinho, o belo é a palavra certa para cada ocasião.

Todo o poema é um ato emocional que usa palavras. Há que descobrir a emoção central.

O poema é uma máquina para expressar coisas.

Obsceno: fora de cena.

Uma tese deve descobrir uma coisa nova; ou então, apresentar uma perspetiva nova sobre uma coisa velha.

O editor é um servidor do texto.

O autor é o rei do texto.

O editor não avalia nem critica o texto: serve-o, melhora-o.

 

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Um abraço a todos

Nuno V


 Saudações queridos colegas!

Como (alguns de vocês) sabem, eu não partilho as disciplinas de Edição Informática e Edição Eletrónica convosco. Em vez dessas, eu estou a fazer a disciplina de Ficção Breve. Ora, à semelhança das minhas disciplinas de Creative Writing na licenciatura, tive de escrever um texto - uma 'short story' digamos - para em aula ser comentada por um dos meus colegas. Fiquei bastante contente com a discussão que o texto gerou em aula, e foi óptimo receber feedback para saber como posso aprimorar e ajudar o texto a ir mais além. 

Gostaria de partilhar o texto com vocês também. Seria magnífico ter algum feedback da vossa parte, aspirantes a editores! Críticas construtivas são mais que bem vindas! Este foi o texto maior - tem 4 páginas - que escrevi em português nos últimos 6/7 anos. Escrevê-lo foi como reaprender a tocar um instrumento musical, e digo instrumento musical porque a nossa língua tem uma musicalidade que o inglês não partilha. O inglês tem a sua plasticidade, e o português uma musicalidade especial.

Uma última nota sobre o texto: O objectivo era utilizar o conceito de 'estranhamento' (defamiliarization) presente nas teorias de formalistas russos como Viktor Shklovsky. Enquanto duas colegas incorporaram o estranhamento enquanto conteúdo, eu tentei aplicá-lo na forma. Ou seja, peguei numa situação que me é mais ou menos familiar e tentei expô-la de uma forma que não me é orgânica. A minha escrita costuma ser mais despida de tantos floreados mas neste caso acho que fez algum sentido. Dito isto, também considero que este texto pertence ao ramo da autoficção, sendo que muito raramente (a não ser poemas) escrevo com base nas minhas vivências, mas neste caso achei que utilizar o estranhamento para trabalhar esta situação mais ou menos familiar poderia ser interessante. 

E pronto é isto. Tenham um excelente fim de semana e muito obrigada desde já! 

Margarida B.

https://www.dropbox.com/s/y0b3wpm0owq1v79/Fic%C3%A7%C3%A3o%20Breve_Margarida%20Bastos_Quid%20Pro%20Quo.pdf?dl=0

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Tradução do poema "Cheers" de Raymond Carver, por Inês Afonso

Brindemos 

Vodka seguida de café. Todas as manhãs penduro um sinal na porta: 

VOLTO JÁ 

Mas ninguém lhe presta atenção; amigos meus olham-no
Às vezes deixam pequenas notas,
ou outra coisa qualquer que lhe chamam 
— Vem cá para fora brincar, 
Ray-mond 

Uma vez o meu filho, esse sacana, sorrateiramente deixou-me um ovo colorido e uma bengala. 
Acho que bebeu um pouco da minha Vodka.
E na semana passada a minha mulher passou por lá
com uma lata de canja
e um pacote de lágrimas
Bebeu um pouco da minha vodka também, acho,
depois partiu apressadamente num carro estranho
com um homem que nunca tinha visto antes.
Eles não percebem: Estou bem;
Estou bem onde estou, em breve
devo estar, devo estar, devo estar...

Tenciono demorar-me o tempo todo do mundo,
Considerar tudo, até milagres,
ainda que mantendo a guarda,
cada vez mais cuidadoso, mais cauteloso,
contra todos aqueles que me pecariam
contra todos aqueles que me roubariam vodka
contra todos aqueles que me magorariam. 

Sugestão de tradução - "Cheers" de Raymond Carver

Saúde!

Vodka seguida de café. Todas as manhãs
Penduro uma tabuleta na porta:

FORA PARA ALMOÇO

Mas ninguém presta atenção; os meus amigos
olham para a tabuleta e,
Às vezes, deixam pequenas notas
Ou chamam - Vem cá fora brincar,
Ray-mod

Uma vez o meu filho, aquele sacana,
Entrou sorrateiramente e deixou-me um ovo colorido
E uma bengala.
Eu acho que ele bebeu um pouco da minha vodka.
E na semana passada a minha mulher trouxe uma 
Lata de sopa de carne de vaca
E uma caixa de lágrimas.
Ela também bebeu um pouco da minha vodka, acho eu
E depois foi embora apressadamente num carro estranho
Com um homem que nunca tinha visto antes.
Eles não percebem; eu estou bem,
Simplesmente bem onde estou, a partir de qualquer dia
Vou estar, vou estar, vou estar...

Pretendo levar todo o tempo deste mundo
A considerar tudo, até milagres,
Mas mantendo-me atento, sempre mais cuidadoso, mais observador,
Com aqueles que pecariam contra mim,
Com aqueles que roubariam vodka,
Com aqueles que me fariam mal.



Marta Bernardino

Raymond Carver - Saúde


Vodka misturada ao café. Toda manhã

Eu penduro o aviso na porta


PAUSA PARA O ALMOÇO


Mas ninguém repara; meus amigos

olham para o aviso e 

às vezes deixam bilhetinhos,

ou ainda chama - Vem brincar,

Ray-mond.


Uma vez o meu filho, aquele bastardo, 

entrou de fininho e  deixou-me um ovo colorido

e uma bengala.

Eu acho que ele bebeu um pouco da minha vodka. 

E na semana passada a minha mulher passou por aqui

com uma lata de sopa de carne

e uma caixa de lágrimas.

Ela bebeu um pouco da minha vodka também. Eu presumo,

e partiu apressadamente no carro de um estranho

com um homem que eu nunca vi antes.

Eles não percebem; eu estou bem,

bem onde estou, de qualquer dia a partir de hoje

ficarei, ficarei, ficarei…


Eu pretendo ter todo o tempo do mundo,

ter em conta tudo, até milagres,

mas manter a guarda, sempre

mais precavido, cuidadoso

àqueles que me amaldiçoariam,

àqueles que roubariam a minha vodka,

àqueles que me fariam algum mal.



Mariana Silveira


Sugestão de Tradução do Poema "Cheers" de Raymond Carver

 À nossa 


Vodka seguida de café. Todas as manhãs

deixo o aviso na porta: 


FECHADO PARA ALMOÇO


Mas ninguém presta atenção; os meus amigos

olham para o aviso e

por vezes deixam pequenos bilhetes,

ou então chamam - Anda daí, 

Ray-mond. 


Uma vez o meu filho, aquele tolo, 

esgueirou-se e deixou-me um ovo colorido

e uma bengala. 

Suspeito que ele bebeu um pouco da minha vodka. 

E, na semana passada, a minha mulher passou por cá

e deixou-me uma lata de sopa de carne

e um pacote de lágrimas. 

Ela também bebeu um pouco da minha vodka, penso eu, 

e depois saiu apressada num carro estranho

com um homem que eu nunca tinha visto antes. 

Eles não compreendem, eu estou bem, 

bem onde estou, porque em breve

eu estarei, eu estarei, eu estarei... 


Eu pretendo levar todo o tempo deste mundo, 

considerar tudo, até milagres, 

e ainda assim manter-me alerta, sempre

mais cauteloso, mais atento

contra aqueles que pecariam contra mim, 

contra aqueles que roubariam a minha vodka,

contra aqueles que me magoariam. 


Mariana Félix






A tradução da Catarina S. Costa:

 SAÚDE


A vodca concorria com o café. Todas as manhãs
pendurava um letreiro na porta:

      FECHADO PARA ALMOÇO

Mas ninguém ligava nenhuma; os meus amigos
olham para o letreiro e
às vezes deixam pequenos recados,
ou então chamam-me - Anda cá para fora brincar,
Ray-mond.

Um dia, o meu filho, esse sacana,
entrou de fininho e deixou-me um ovo colorido
e uma bengala.
Acho que bebeu alguma vodca.
E na semana passada a minha mulher apareceu
com uma lata de sopa de rabo de boi
e um pacote de lágrimas.
também ela bebeu alguma da minha vodca, acho eu,
depois partiu à pressa num carro desconhecido
com um homem que eu nunca tinha visto.
eles não percebem; eu estou óptimo,
óptimo onde estou, porque um dia destes
eu serei, eu serei, eu serei...

Tenciono demorar todo o tempo do mundo,
levar tudo em consideração, até os milagres,
mas apesar disso manter-me atento, cada vez mais
cauteloso, mais vigilante,
a todos os que pecariam contra mim,
a todos os que me roubariam vodca,
a todos os que me fariam mal.


Minha versão do poema "Cheers", de Raymond Carver

 

Um brinde

 

Vodka seguida de café. Todo dia

Colo um papel na porta


SAÍ PARA ALMOÇAR

 

Mas ninguém liga;

Meus amigos olham pro papel

Às vezes eles deixam uns recadinhos

Ou gritam lá fora — Aparece aí,

Rai-mun-do.

 

Uma vez, meu filho, aquele sem-vergonha,

Entrou aqui de fininho e deixou pra mim um ovo de capoeira

E uma bengala

Eu acho que ele deu uns goles na minha vodka 

E na última semana foi minha mulher que deu uma passadinha

Com uma lata de sopa de carne

E um balde de lágrimas

Ela também deu uns goles na minha vodka, eu acho

Depois foi embora num carro estranho

Com um cara que eu nunca vi

Eles não acreditam; mas eu tô bem,

Eu fico bem aqui onde eu tô, e onde daqui pra frente

Eu vou tá, eu vou tá, eu vou tá...

 

Pretendo usar todo tempo do mundo

Esperando qualquer coisa, até um milagre,

Mas sempre desconfiado

Mais cuidadoso, mais ligado

Naqueles que podem cometer algum pecado contra mim

Naqueles que podem roubar minha vodka

Naqueles que podem me fazer mal.



(Cristiano Borba)


Até logo!
Nuno V

proposta de tradução do poema "Cheers", de Raymond Carver





Cheers




Vodca seguida de café. Todas as manhãs

penduro o aviso na porta:

FECHADO PARA ALMOÇO


Mas ninguém repara; os meus amigos

olham para o aviso e

por vezes deixam pequenos recados,

ou até me chamam – Anda, vamos brincar,

Ray - mond.





Uma vez, o meu filho, esse sacana,

entrou de soslaio e deixou-me um ovo colorido

e uma bengala.

Acho que bebeu da minha vodca.

E, na semana passada, a minha mulher passou

e deixou-me uma lata de sopa de carne

e um pacote de lágrimas.

Também bebeu da minha vodca, acho,

e depois saiu apressada num carro estranho

com um homem que eu nunca tinha visto.

Não entendem; eu estou bem,

bem onde estou, porque em breve

estarei, estarei, estarei...




Planeio levar todo o tempo deste mundo,

considerar tudo, até milagres,

mas acautelar, sempre,

com muito cuidado, muita atenção

para com aqueles que pecariam contra mim,

para com aqueles que roubariam vodca,

para com aqueles que me fariam mal.




mafalda

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Sugestão de tradução - poema "Cheers", R. Carver

Vodka seguida de café. Todas as manhãs
Penduro o aviso à porta:

FORA PARA ALMOÇAR

Mas ninguém presta atenção; os meus amigos 

vêm o aviso e 

por vezes deixam bilhetinhos, 

ou então convidam-me - Sai e diverte-te, 

Ray - mond.

Uma vez o meu filho, esse sacana, 

entrou e deixou-me um ovo colorido 

e uma bengala. 

Acho que bebeu um pouco da minha vodka.
 

E na semana passada a minha mulher passou por cá 

com uma lata de sopa de carne 

e uma caixa de lágrimas. 

E também bebeu um pouco da minha vodka, penso eu, 

depois saiu à pressa num carro estranho 

com um homem que nunca tinha visto.
Não entendem; estou bem, 

bem onde estou, porque qualquer dia
Vou ser, vou ser, vou ser ...

Tenciono dedicar todo o tempo do mundo, 

para considerar tudo, mesmo os milagres, 

mas sempre alerta, sempre 

mais cuidadoso, mais atento, 

contra aqueles que iriam pecar contra mim, 

contra aqueles que iriam roubar vodka, 

contra aqueles que me fariam mal.


Sugestão de Tradução

Olá colegas e professor,

Deixo aqui a minha sugestão de tradução do poema do Raymond Carver, "Cheers".


CHIN-CHIN!

 

Uma vodka e depois um café. Todas as manhãs

penduro a tabuleta na porta:

 

FUI ALMOÇAR

 

Mas ninguém liga nenhuma; os meus amigos

veem a tabuleta e

às vezes deixam-me uns papelinhos,

outras vezes chamam-me lá de fora – Anda aí,

Ray – mond.

 

Uma vez o meu filho, cabrãozinho,

entrou à socapa e deixou-me um ovo pintado

e uma bengala.

Deve ter bebido da minha vodka.

E a semana passada a minha mulher passou cá

com uma lata de sopa de carne de vaca

e um pacotinho de cartão com lágrimas.

Também deve ter dado uns golinhos da vodka,

e depois saiu à pressa num carro estranho

com um homem que eu nunca tinha visto.

Eles não percebem; Eu estou bem,

eu estou muito bem onde estou, e daqui para a frente

vou ficar cada vez melhor, ai vou vou… ai vou vou…

 

Tenho intenções de utilizar todo o tempo deste mundo,

ter em conta todos os cenários, até milagres

mas sempre sem baixar a guarda, sempre

mais cuidadoso, mais atento,

 

a todos os que poderiam pecar contra mim,

a todos os que me poderiam roubar vodka,

a todos os que me poderiam tramar.


João Roque


domingo, 6 de novembro de 2022

Relação entre Autor e Tradutor

Boa tarde,

No seguimento da última aula de Teoria de Edição (que foi bastante focada em Tradução), partilho um artigo do The Guardian que explora a relação entre alguns autores da atualidade e tradutores das suas obras. Quem tiver interesse em Tradução Literária pode espreitar aqui: https://www.theguardian.com/books/2019/apr/06/its-a-silent-conversation-authors-and-translators-on-their-unique-relationship (atenção: datado de abril de 2019).


Uma boa semana para todos!

Margarida Coelho

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Proposta de Tradução do poema Cheers de RC

Boa tarde a todos,

Aqui fica a minha proposta de tradução. A sugestão do professor para imaginar um ator a interpretar o texto mudou bastante a minha abordagem e, claro, o resultado. Cheers!
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À nossa

de Raymond Carver

 

Uma vodka, um café. Todas as manhãs

penduro na porta o sinal:

 

SAÍ PARA ALMOÇAR

 

Mas ninguém faz caso: os meus amigos

veem o sinal e às vezes deixam uns papelinhos,

ou então chamam – Sai daí e vem brincar,

Ray-mond


Uma vez o meu filho, o sacana,

conseguiu entrar e deixou-me um ovo pintado

e uma bengala.

Deve ter andado a beber da minha vodka.

E na semana passada a minha mulher apareceu aí

com uma lata de sopa de carne

e um pacote de lágrimas.

Também me bebeu um bocado da vodka, parece-me,

depois saiu à pressa num carro que não reconheci

com um homem que também nunca vi.

Ninguém me entende; está tudo bem,

estou bem onde estou, um dia destes

eu vou ser, eu vou ser, eu vou ser…


Tenciono tomar todo o tempo do mundo,

admitir tudo, até milagres,

mas sem baixar a guarda, cada vez

mais cuidadoso, mais atento,

contra todos os que pecariam contra mim,

contra todos os que roubariam a minha vodka,

contra todos os que me fariam mal.

 

 

Tradução de Nuno M Valente

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

a propósito dos hamburgueres

O professor falou de comer hamburgueres McDonald's durante 3 meses. A propósito, existe um documentário chamado "Supersize Me" em que o autor se submeteu a esse tratamento. Recomendo 

Artigo sobre edição

 Olá!

Ao ler o livro que levei para casa na semana passada, O Negócio dos Livros de André Schiffrin, lembrei-me deste artigo que li há uns tempos. É sobre a relação entre os editores e as obras dos autores, e como o mercado das últimas décadas influenciou essa relação. Achei que vos poderia interessar.

https://www.theguardian.com/books/2011/feb/11/lost-art-editing-books-publishing

Vasco Hart

Uma livraria curiosa

  A Greta . Ainda não fui lá, embora nem seja longe de onde moro.